Quando o sentimento é patológico

Boa tarde.

Escrevo esse email porque entrei no site e vi o contato. Eu estou muito triste…muito confusa. Vou explicar resumidamente o que esta havendo:

Conheci um rapaz há um mês. Há 4 meses ele terminou com a ex namorada com quem se relacionou por 5 anos. Mesmo gostando dela ainda ele se relaciona comigo. Mas as vezes parece que ele gosta de mim e outras vezes não.

Isso me deixa muito mal. Sei que ele tem depressão por ser muito sozinho: tem poucos amigos e não tem família. Ele mesmo me disse que estava muito confuso a respeito de tudo…que esta passando pela pior fase da vida dele.

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Eu o questionei a respeito de namorarmos, mas ele me disse que por enquanto somos ficantes e que o que temos hoje pode vir a ser algo grande. Será que isso procede mesmo?

Ele diz gostar muito de mim. Me apresentou pra alguns amigos, me chamou pelo meu apelido carinhoso na frente deles e um desses amigos se referiu a mim como se eu fosse namorada e não ficante. Fato é que numa situação dessa não sei o que fazer.

Sinto que deveria desistir dele, mas tenho carinho e gosto de estar com ele. Mas por outro lado, não sei se por causa da depressão ele fica muito instável. Passamos o fim de semana super bem e hoje quando o chamo no MSN ele mal me responde. De um jeito ou de outro eu sofreria…eu estou confusa,perdida.

Tenho medo. Não sei como devo fazer, se demonstrar carinho demais é ruim. e de menos pode ser pior ainda. Pode ser que ele ainda goste da ex mas nesse fim de semana que passamos juntos ele

Tocou no nome dela uma vez porque conversávamos a respeito dos meus ex. Ele é sozinho,tem depressão, odeia o próprio trabalho,a própria vida, gosta de mim (muito) mas esta confuso a respeito de tudo.

Será que ele só precisa de alguém que não desista dele? Afinal de contas ele não tem mais ninguém =(

 


Olá F.,

Todos temos o direito de sermos felizes, mas também temos o direito ao sofrimento. Não que isso seja algo bom para nós, mas sabemos que o sofrimento é algo inerente à condição de vida e existência do ser humano. Conforme vamos crescendo, cabe a nós e unicamente a nós desenvolvermos mecanismos de “defesa” e enfrentamento para lidarmos da melhor maneira possível com o mundo que nos cerca de maneira que não sejamos retalhados pelo que nos aparece como uma figura desfigurada, de semblante triste e sem cor ou sons.

Até hoje o Homem se questiona sobre seu propósito no mundo. Com isso, me parece que vamos correndo para todos os lados…de fora… e por muitas vezes nosso interior passa despercebido, sem ser ouvido nem ao menos contemplado. Há riqueza em um vaso, mas o sentido do seu uso está no seu vazio interior, como uma casa.

A depressão é como um vazio aparentemente sem sentido mas que retrata, resumidamente, a perda de prazer pelas coisas. Nessa perda de prazer, existem sintomas necessários para que ela seja diagnosticada. Portanto ela caracteriza-se por:

—  Distúrbio de humor persistente, com no mínimo duas semanas de evolução, apresentando:

—  humor depressivo;

—  perda de interesse e prazer pelas atividades diárias;

—  empobrecimento nos relacionamentos;

—  sentimento de culpa;

—  mudanças de peso e apetite;

—  insônia ou hipersonia;

—  fadiga excessiva;

—  sensação de ter pouca ou nenhuma energia para realizar alguma tarefa;

—  lentidão ou agitação psicomotora, dificuldade para concentrar-se ou para tomar decisões e raciocinar;

—  presença de pensamentos sobre morte.

Mas o melhor de tudo é que a depressão é perfeitamente tratável e com excelentes resultados para as pessoas que se submetem a um acompanhamento. O primeiro passo é reconhecer-se em uma condição cuja ajuda terapêutica poderia e muito acrescentar. Mas antes de mais nada é importantíssimo uma correta avaliação, feita por um profissional competente antes de rotularmos alguém com determinada patologia. Coisa que não ajuda em nada. Em muitos casos, onde as pessoas administram medicação voltada para a saúde mental, apenas a terapia ja seria suficiente para que o indivíduo tivesse uma melhora significativa se fosse feito um acompanhamento adequado.

Eu fico pensando F. como deve ser difícil estar com alguém que não tem o que doar a não ser o seu próprio mal estar com relação a vida e as coisas. Você tem escolhas nesse relacionamento, eu entendo que a situação dele possa ser triste, mas nada impede que ele possa buscar algo que o tire dessa condição. Mas isso é uma questão dele. Eu percebo que, na maioria das vezes, quando alguém gosta de outra pessoa, acaba tomando-a para “cuidar” dela, abraçando seus sofrimentos e angústias, mas isso acaba não sendo eficiente e nem proporciona crescimento para o parceiro justamente pelo fato de que se ele não quer entrar em contato com suas próprias questões, não é o outro que irá aprender ou superar por ele.

Você pode gostar dele, amar verdadeiramente, mas até que ponto esse amor está disposto e disponível diante de uma situação como essa? Aliás, você mesma nos escreveu para dizer o incomodo e tristeza que anda sentindo pela instabilidade emocional da parte dele. Gostar, em um relacionamento, é importante, mas não é tudo. Outra coisa, vá com calma, ele saiu de um relacionamento longo, vocês mal se conheceram ao ponto de trocarem experiências, idéias, fazerem coisas juntos para saberem se rola algo legal, se a convivência é possível, ou seja, há ainda um longo caminho pela frente.

E mesmo que vocês já tenham se conhecido há um tempo atrás, não parece que foram criados momentos para vocês estarem a dois, nem que seja como conhecidos ou amigos. É importante um mínimo de clima vamos dizer assim, para que vocês posam sentir aquela coisa que venha de dentro sabe? Que dá tremelique rs….e daí então investir em algo mais. A seu tempo. Ou talvez esse tempo seja de descoberta para ver que estar junto não é algo que acrescentaria na vida um do outro. Bom, ai vai de você.

Você escreveu uma frase significativa: “Sinto que deveria desistir dele”  se você tem dúvidas com relação a isso, não se sinta na obrigação de investir em um relacionamento só para se sentir menos culpada por não estar com ele, pense em você porque se agora você se sente incomodada, como lidar com toda essa situação com o decorrer do tempo? Porque, como já mencionei em diversos posts, promessas a dois não dizem muito porque realmente não sabemos o que pode acontecer.

Entendo que você tenha carinho e goste dele, mas o quanto? Ao ponto de senti-lo como um grande amor na sua vida porque ele lhe faz sentir mulher, amada, respeitada, cuidada, acariciada? Ou ao ponto de sentir um respeito e preocupação dele estar bem? Boas reflexões.

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Psicólogo, consultor de relacionamentos e quase Mestre pela USP-SP. Meio NERD, completo romântico, mas não abre mão de um intenso beijo na boca e um alinhamento entre coração, corpo e mente.

7 comentários No Quando o sentimento é patológico

  • Se for o mesmo é muita falta de sorte.

  • “O que nao se decide, decidido está”.

  • No caso esse homem era exatamente assim;

    – praticamente nao tinha familia, poucos amigos;
    – detesta o trabalho;
    – está depressivo

    será que é o mesmo? rs

  • Só mais uma coisa – Nossa historia tem mto em comum.
    – Ele tb praticamente nao tem familia;
    – detesta o trabalho;
    – poucos amigos e está depressivo.

    To ate achando que estamos falando do mesmo cara…rs

  • Nunca li uma carta que se identificasse tanto comigo.Com uma grande diferença: eu nao conhecia o cara há 1 mes apenas, foi um relacionamento mais longo. No meu entendimento 1 mes é mto pouco pra vc ter certeza que ele gosta tanto assim de vc (e vc dele!).

    Após mtas tentativas eu desisti. Sofri mto c/ essa decisao, principalmente pq ele ficou se humilhando atras de mim por um tempo. Mas sofri mto menos do que sofria com essas oscilações. Num dia ele me amava, 2 dias depois nao tava nem aí, queria ficar sozinho. É mto dificil construir algo real e saudável com uma pessoa assim.

    No seu caso eu nao pensaria duas vezes e pularia fora. Vcs mal se conhecem, e algo me diz que ele ainda gosta da ex. Digamos que vcs curtem o momento, mas qdo ele volta pra casa a realidade bate e é aí que ele fica distante e indiferente. Não o conheço, mas parece que é mais ou menos isso.

    O que nao se decide, decidido está.

  • Bom dia F… Bom dia Marcio.
    Estou lendo um livro justo que fala sobre esse assunto, “Robin Norwood” Livro: Mulheres que amam demais. É isso de que toda a mulher acha que tem mesmo que cuidar do outro, como quando éramos crianças e nos davam bonecas e passavamos horas só pensando nela e até esquecíamos da gente. Acontece que o homem não é uma boneca passiva, ele reage aos nossos cuidados, muitas vezes nos machucando, pois quando está doente não consegue doar nada só sugar, exatamente como o Marcio disse, pelo menos é isso que estou entendendo ao ler esse livro e que pior geralmente também nós mulheres estamos doentes ao ter esse posicionamento de só cuidar, de só pensar no outro, de só querer que ele mude, etc.
    Realmente você deve refletir sobre o que esse tipo de relacionamento pode trazer para sua vida
    beijuss da sara 😀

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