Viver – Uma sequência sucessiva de decisões

Escrevo para tentar conseguir ajuda de uma pessoa que não me conhece e que não vai me julgar. Sou casada há 14 anos, de uma maneira geral, me considero feliz, não tenho muito a reclamar de meu marido. Analisando relações com o mesmo tempo que a nossa, acredito que meu casamento é bom.

Tudo em minha vida caminhava como sempre planejei: faculdade, casamento, filhos, um bom emprego, situação financeira estável e uma carreira promissora, hoje, ocupo um cargo importante em uma grande empresa.

Tenho 38 anos, antes de casar tive alguns relacionamentos, e desde que comecei a namorar meu marido, há 15 anos, sempre fui fiel.

Há cerca de 3 anos, comecei a notar que um cliente da empresa onde trabalho, começou a frequentar meu local de trabalho com uma assiduidade maior que a convencional. Aos poucos, também notei que ele ia lá com assuntos sem muita lógica, parecia que ele estava inventando situações para me ver. Durante nossos contactos, nós conversávamos muito, ríamos e sem perceber, o tempo passava… ele ficava comigo muito mais tempo que os clientes “normais”.Em nossas conversas ele aos poucos foi me contando sua vida, falou que estava divorciado há alguns anos, que não sabia o que fazer da vida, que tinha vontade de se casar novamente… enfim passava a imagem de “maior abandonado”. Quando me dei conta, ia embora pensando nele e, ficava ansiosa pela próxima visita. De uma hora para outra, durante estes encontros eu comecei a travar, ficava tão nervosa que não conseguia nem falar direito. Meu coração disparava, tinha borboletas na barriga , as pernas ficavam moles, eu ficava vermelha e não conseguia nem olhar para ele…

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Ele lógico percebeu e, passou a procurar almoçar sempre com um colega meu, nestes almoços, eu sabia que ele perguntava de mim (meu colega às vezes insinuava alguma coisa), mas eu nunca fiquei sabendo em detalhes o que ele falava/perguntava de mim.

Um dia, durante uma de suas visitas, este tal colega se aproximou de minha mesa e ficamos os três batendo papo. Em algum momento, meu colega insinuou que na idade deles fica cada vez mais difícil conquistar mulheres (os dois são cinquentões). Vi que ele ficou triste, abaixou a cabeça e depois deste dia desapareceu por uns dois meses.

Quando ele retornou, eu procurei, de forma sutil é claro, demonstrar um certo interesse por ele.Vi que ele gostou, me deu um presente alguns dias depois, enfim, aos poucos a gente ia demonstrando, do nosso jeito, o interesse um pelo outro. Isso durou mais alguns meses… Em todos nossos contactos ele sempre me respeitou, às vezes, de forma delicada ele procurava saber o horário que eu ia almoçar ou sair no final da tarde,eu às vezes mentia ou mudava meus horários porque tinha medo de me encontrar com ele fora daquele ambiente. Na verdade tinha mais medo de ser vista ao lado dele do que de outra coisa,afinal o que meus colegas iam pensar ? Mas ele continuava ali, sem se importar em ser discreto, deixava bem claro a todos que estava interessado. Nunca esqueço o dia em que ele se debruçou sobre minha mesa e disse que nunca tinha sentido antes o que estava sentindo naquele momento, outras vezes, ele pedia para eu me acalmar, que não precisava ficar nervosa por causa do que estávamos sentindo um pelo outro…Eu estava tão apaixonada que quase pedi o divórcio !

O problema é que no auge desta paixão maluca, na hora que achei que tudo ia se resolver, ele sumiu ! Ficou semanas sem dar sinal de vida ! Eu fiquei me sentindo a pessoa mais idiota do mundo !

Um dia, nos encontramos num shopping por acaso, eu estava com umas amigas (que sabiam da história) e ele com uns amigos. Na hora que ele me viu de longe, veio em minha direcão todo sorridente. Eu estava com tanta raiva que cumprimentei de longe e desviei dele para evitar um contacto mais próximo. Ele ficou me olhando com cara de idiota, aparentemente sem entender nada… acho que funcionou porque dias depois ele reapareceu no meu trabalho. Mas eu, novamente, fugi dele, pedi para uma colega atendê-lo e antecipei uma reunião que estava marcada para o dia seguinte para poder sumir . Depois, passei a evitá-lo de todas as formas possíveis, mudei meus horários e rotinas para que ele nunca soubesse quando e onde me encontrar, ele ficou uns 2 meses tentando falar comigo sem sucesso.

Quando nos encontramos depois desta confusão toda, o clima continuava igual,mas eu pelo menos estava conseguindo controlar mais minhas emoções e não me comportava sempre como uma idiota apaixonada. Ele continuou aparecendo lá no meu serviço, mas com uma frequencia bem menor ( uma ou duas vezes por mês). Às vezes, quando estava sumido,mandava um e-mail ou ligava, sempre falando sobre algum assunto de trabalho, mas aproveitava pra dizer que estava muito ocupado e que estava sem tempo pra nada….

O problema é que há alguns meses, fui transferida para um outro departamento. Antes de ir embora, avisei ele sobre a mudança. Ele ficou triste, perguntou se não tinha como eu negociar a transferência com meu chefe…mas pra falar a verdade, fui eu quem pediu para mudar de departamento ,pois esta situação estava começando a abalar meu casamento. Afinal, nos dias em que a gente se via, eu ia pra casa sonhando com ele e acabava não suportando a presença do meu marido.

Além disso, todos no meu local de trabalho já sabiam do meu rolo com o tal cliente e eu comecei a ficar com medo da minha família descobrir.
No momento da nossa despedida, ele perguntou se a gente poderia continuar se vendo , eu disse que seria difícil, mas ele insistiu e eu acabei respondendo que ele sabia como me encontrar.

De lá pra cá,ele me mandou meia dúzia de e-mails, todos muito frios. Eu nem respondi alguns de tanta raiva que fiquei com a indiferença.

Será que ele desistiu ? Devo tomar alguma atitude mais ousada como ligar para ele ? Será que ele queria só se divertir ? O que faz um homem livre se aproximar de uma mulher casada ?

Continuo pensando nele o tempo todo, nunca gostei tanto de uma pessoa, já tentei de tudo para esquecê-lo, até terapia estou fazendo, mas não tem adiantado, não consigo tirar este homem da minha cabeça ! Por favor, me ajude !!

-Ao ser questionada sobre a platonicidade ou não desse “relacionamento”, a leitora responde:

O relacionamento nunca deixou de ser platônico, porque sempre que ele insinuava que queria almoçar comigo, eu mudava de assunto. Teve umas duas vezes que ele chegou no meu trabalho bem na hora em que eu ia sair pra almoçar (ele sabia todos os meus horários), e eu sai correndo, dizendo que tinha um compromisso.

Em outra ocasião,acho que talvez a tentativa mais ousada dele, no meio de uma conversa onde eu falava que ia trabalhar durante alguns dias em uma outra cidade (que é a cidade natal de nós dois) ele falou para eu ficar em um apartamento que ele tem lá ( que ele usa raramente). Claro que não aceitei, afinal como ia explicar isso pro meu marido ? Quando agradeci o “convite” ele ficou muito bravo, deu a impressão que eu era uma fresca.

Enfim, ainda continuo pensando nele, mas sinto que aos poucos este sentimento está indo embora, afinal já faz umas 3 semanas que ele não dá sinal de vida, nem respondeu meu último e-mail.

No entanto, como eu nunca tinha sentido algo semelhante antes, sinto a curiosidade de saber se ele também sentia algo sincero por mim ou se era só diversão.

Outra coisa que esqueci de contar, e que foi um dos momentos mais emocionantes de minha vida, foi quando vi a emoção dele ao receber um presente que eu trouxe para ele do local onde fui passar as férias. Os olhos dele ficaram cheios de lágrimas, ele me abraçou e beijou ( no rosto é claro, pq pra variar estávamos no meu antigo local de trabalho) de um jeito que eu nunca tinha visto. As mãos dele tremiam segurando o presente !

Bom Mr.P., aguardo uma resposta para tentar entender um pouco esta maluquice toda.

Desesperada


Cara leitora, primeiramente gostaria de agradecer o envio da interessante história cuja análise será de grande valia para todas as mulheres que acessam ao blog.
Por conseguinte, não poderia deixar de comentar, que, ao ler a história, senti-me folheando uma obra machadiana¹. A descrição da intensa complexidade psicológica do ser humano e das imperfeições da humanidade tendo, como personagem principal, uma mulher que, apesar de ser forte e racional, sente-se perdida ao comprovar a vulnerabilidade do que, até então, considerava amor  fez-me viajar pelos campos da literatura romantico-realista.

É.
O amor é vulnerável.
Não só ele, como tudo que podemos sentir.
Até ai, nada de anormal.
Como não está fora da normalidade o fato de que, a todo momento, dispomos de diferentes opções de ação e temos que escolher uma, dentre o leque de possibilidades que nos é apresentado.

Desde simples decisões, como, qual roupa vestir, qual cor de sapato calçar, a decisões extremamente complexas, como, qual profissão seguir, com quem casar, se devemos nos separar.
Algumas decisões são tomadas de forma instantânea, outras demandam um tempo de reflexão. Porém, em nenhum dos casos, nos furtamos de decidir. Visto que, o não agir, a inércia, também, é uma decisão.

Por isso, você, mesmo que de forma inconsciente, de acordo com as atitudes relatadas, decidiu preservar a estabilidade da sua vida amorosa, ou seja, seu casamento em detrimento de uma aventura na qual é impossível prever seu êxito ou fracasso sem embarcar de corpo e alma.

Para finalizar é extremamente importante deixar claro que estabilidade nada tem a ver com acomodação. Muito pelo contrário.

Uma empresa é considerada estável por ter bases sólidas e não ser tão vulnerável às variações do mercado. Isso decorre do trabalho duro, esforço e vontade dos seus integrantes que a cada dia enfrentam várias situações e problemas que se não forem superados podem culminar com a queda da mesma.

Um relacionamento estável não é diferente. Ele tem uma base sólida decorrente de um trabalho duro e diário para superar, ultrapassar os problemas internos e externos que surgem ou estão na iminência de surgir no intuito da preservação da sua existência.

Portanto, ser estável  é, praticamente, o oposto de ser acomodado.

Bom Fim de semana

BJS

¹ Conjunto literário escrito por Machado de Assis. Caso se interesse em saber mais sobre o maior nome da literatura brasileira de todos os tempos, comece assistindo o vídeo abaixo:

Mr. P

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Empresário, administrador, jurista e escritor. Adora filosofia, psicologia, história e musculação. Crê que o "caminho da vida" é a busca da evolução perpétua. Escreve e responde dúvidas sobre os mais variados assuntos.

7 comentários No Viver – Uma sequência sucessiva de decisões

  • Se é bom ou ruim, só com o tempo iremos saber….. mas, quando soubermos, esse assunto, já, será ultrapassado……estaremos discutindo outras coisas…..

  • jaciara carreira

    MR P.
    Eu Também acho que alguma estão se esforçando para isso, o que não sei dizer é se seria bom para a essencia das mulheres.

  • Mr.P.
    É Por isso que atualmente ando escutando as várias mulheres que dentro de mim tenho. No começo é complicado mas sabe que até estou gostando!
    beijuss 😛

  • Obrigado Garotas…..

    Drika: Realmente é o melhor. A obra é grande, mas nossa vida é longa.

    Mel: Prefiro dizer que, todos nós, somos vários num só. Melhor multiplicar do que dividir.

    Jaci: Concordo que as mulheres são mais fiéis que os homens. Mas elas estão se esforçando muito para alcançá-los. Afinal, vivemos um processo de equalização dos sexos em sentido amplo.

  • jaciara carreira

    Mr P, este para mim foi o seu melhor post, com certeza irão vir outros.Parabéns.
    Mulher gosta de um amor impossível,proibido,aquele sentimento que nunca podera alcançar.
    Aqueles que só ficam em pensamentos.
    Os homens sempre são ditos como traidores, mas eu acredito que em pensamentos as mulheres traem muito,porque talvez não pareça tão errado.
    Talvez a mulher pense mais realmente na estabilidade de um relacionamento, o que faz que não viva grandes emoções.
    Essas decisões que a mulher toma, digo até com mais seriedade que os homens faz dela mais fiel.

  • Mr.P.
    Lindo seu post, a história da leitora parece sim um desses romances impossíveis. Eu sempre digo que cada mulher carrega dentro de si pelo menos duas “uma quase sempre é emoção, age com o coração, se joga de cabeça” a outra é a razão e muitas vezes deixa de viver um grande amor porque permite que essa mulher vença.
    Que bom seria escutarmos essas duas mulheres!
    beijuss 😛

  • Mr. P, sua sacada foi gênial, a história dela parece mesmo saida de um livro do Machado de Assis.
    Eu sempre digo e já disse aqui no Cm que Machado de Assis é meu escritor favorito já li Dom Casmurro umas 5 vezes pelo menos, história envolvente que pra mim é escrita nas entrelinhas.
    Tenho como meta ler a obra inteira dele.
    Bjus

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